Não podemos retroceder no modelo liberal, diz economista chilena

Para os discípulos dos Chicago Boys chilenos, a onda de protestos no país não põe em xeque o modelo liberal aplicado há décadas, mas é preciso haver ajustes que contemplem as novas demandas da classe média.

É esta a opinião de Bettina Horst, 48, vice-diretora do Instituto Libertad y Desarrollo (Liberdade e Desenvolvimento), principal porta-voz no país das ideias liberais que foram implementadas por economistas ligados à Escola de Chicago ainda durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-90). Um dos fundadores do think tank é Hernan Buchi, que foi ministro da Fazenda de Pinochet.

“A liberdade econômica gerou grandes benefícios, pois reduziu a pobreza e melhorou os padrões de vida. Mas hoje isso precisa ser acompanhado também de um Estado que consiga enfrentar os novos desafios e as novas demandas”, diz Horst, em entrevista por telefone.

Segundo ela, as manifestações não têm relação com a desigualdade de renda, mas com as frustrações causadas pela redução no ritmo de crescimento da economia dos últimos cinco anos. A média de alta do PIB, que já teve picos de mais de 10%, caiu para 2,31% desde 2014.

*

O Chile é um país bastante desigual. Que papel esse fator tem nas manifestações? Não é por acaso que tudo isso tenha surgido após termos registrado, nos últimos cinco anos, o pior crescimento da economia em três décadas. Eu, quando digo que não é um tema de desigualdade, não é porque queira afirmar que ela não exista. Mas mais do que a desigualdade, o que as pessoas sentem é que a economia não anda tão bem. A taxa de crescimento tem sido muito mais baixa do que em anos anteriores. Quando se vê as pesquisas de antes deste episódio, as pessoas se queixam de que têm muitas dívidas pendentes e de que há deficiências em educação, aposentadoria, saúde. Muitos setores da população atendidos pelos Estado hoje recebem um tratamento pior do que o oferecido pelo setor privado. Não se notava a urgência desse problema, e se buscava respostas erradas. Quando se fala de reformar a saúde, por exemplo, muitas vezes se termina por injetar maiores recursos no sistema, mas que não necessariamente dão melhor resultado.

A economista chilena Bettina Horst, defensora do modelo liberal de seu país (Divulgação)

O modelo liberal chileno foi aplicado em dose excessiva? O fato concreto é que o modelo dos últimos 30 anos e as reformas dos anos 1980 tiveram três pilares: liberdade econômica, responsabilidade fiscal e políticas sociais focadas nos grupos mais pobres. Essa foi a base do desenvolvimento. O que mais faltou foram políticas sociais que se ajustassem a um país mais de classe média, e não a um país com 70% de pobreza, como já tivemos. O Estado não tem sido capaz de atender à urgência das pessoas. Essas manifestações são de pessoas cansadas de esperar por uma melhor atenção de saúde, cansadas de esperar melhor segurança etc. Um dos principais desafios é conseguirmos fazer uma reforma do Estado e de políticas que deem conta da nova realidade do Chile.

Uma realidade de uma classe média mais forte? Mais forte, com maiores perspectivas e mais exigente. O que não podemos perder é a liberdade econômica e a responsabilidade fiscal. Não se deve retroceder. As coisas não são excludentes. No fim das contas, tudo que faça que em políticas sociais, tudo que se faça para melhorar o Estado, se você não melhora as condições do que a população sente, nunca é suficiente.

Mas não é necessária uma correção no modelo? Não acho que houve excesso. O que vimos é que durante o segundo governo da presidente Bachelet (2014-18), foram feitas reformas importantes que atentavam contra a liberdade econômica. Essas reformas levaram o país a crescer menos e a ter menos empregos. A taxa de crescimento dos salários começou a cair também. Então, o eixo central é retomar uma trilha de crescimento econômico com uma política social que seja capaz de acolher as distintas demandas.

Deveria haver mais desregulamentação? Não podemos retroceder em reformas que nos permitam retomar o caminho do crescimento. Hoje, por exemplo, nosso código de trabalho não dá conta da nova realidade do teletrabalho ou da automatização. É muito rígido quanto às jornadas de trabalho e outros aspectos. As reformas têm de ser focadas em como o país conseguirá ter mais desenvolvimento econômico, mas também ter um Estado capaz de responder melhor às demandas que estão surgindo. E aí o tema da saúde, o tema da aposentadoria, é central. Vocês veem isso no Brasil, muitas vezes o Estado não é capaz de cumprir com suas promessas. Este é o desafio, de se cumprir o que está se prometendo, porque senão o descontentamento será muito maior.

A capitalização chilena é vista como modelo para o Brasil, mas falhou ao não garantir uma renda digna para uma parte dos cidadãos. É hora de reformar a Previdência chilena? Aqui há anos se discute uma reforma do sistema de aposentadorias. Isso vai além da capitalização. O sistema que temos, em que as pessoas poupam para sua posterior aposentadoria, é insuficiente para quem não consegue manter um emprego estável. Temos que discutir o aumento da idade mínima para a aposentadoria, porque aqui seguimos com a idade nos anos 1980, e hoje a expectativa de vida é muito mais alta. É necessário aumentar a taxa de participação [no sistema], aumentar a idade mínima e reforçar também as aposentadorias dos setores que não conseguiram poupar uma quantidade suficiente. Com respeito à capitalização, os aportes que cada um faz asseguram que a aposentadoria vai estar ali amanhã. Temos visto outros sistemas, de repartição, em que, no fim do dia, se o sistema não tiver recursos, não vai pagar. É preciso manter a capitalização, mas fazer reformas que deem conta do que houve nos últimos 40 anos.

O Chile arrecada pouco e gasta pouco com educação e saúde públicas. É preciso mudar esse modelo também? Hoje, efetivamente há educação pública que responde por 40, 45% das matrículas. Educação pública que lamentavelmente perdeu muitas matrículas porque vimos alguns colégios emblemáticos serem capturados por setores mais radicais, que fazem com que seja impossível haver aulas. E houve o desenvolvimento de uma educação privada financiada pelo Estado. Hoje, há mais gente se educando neste sistema do que no público. Quando o último governo [Bachelet] insistiu em transformar a educação, houve várias manifestações em colégios particulares pagos pelo Estado, que se opuseram fortemente. Estavam defendendo seu legítimo direito a escolher entre educação privada e pública.

A redução do crescimento é resultado de políticas de esquerda? O clima anti setor privado que se instalou nos últimos anos não ajuda a um ambiente favorável a fazer negócios. Qualquer política de Estado mais forte, qualquer política social que não venha acompanhada de reformas que facilitem ou gerem um melhor clima para fazer negócios não vai ser suficiente.

A economia chilena ainda é muito dependente de exportações. Até que ponto isso é um problema? Sempre houve a dependência do cobre, mas vimos desenvolvendo outros setores. E também a economia em seu conjunto cresceu em setores distintos, mas nos afeta muito o que se passa no mundo, especialmente nos EUA e na China. Nesse contexto, conseguimos ter políticas que fortaleçam aqueles setores mais prejudicados, que dependem mais do ciclo externo.

Como essa crise afetou a imagem no país dos Chicago Boys? A liberdade econômica gerou grandes benefícios, pois reduziu a pobreza e melhorou os padrões de vida. Mas hoje isso precisa ser acompanhado também de um Estado que consiga enfrentar os novos desafios e as novas demandas. Os temas da saúde, da segurança, da aposentadoria, são próprios de um país que mudou radicalmente nos últimos 30, 40 anos. Mas não se pode deixar de avançar em medidas que permitam recolocar o país no caminho do progresso econômico. Os próximos meses e anos serão muito difíceis.

 

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Raio-x
Nome: Bettina Horst
Idade: 48
Cargo: vice-diretora do Instituto Libertad y Desarrollo
Formação: formada em engenharia comercial, com mestrado em Economia pela PUC do Chile
Funções que exerceu: foi chefe da Área Monetária do Departamento de Estudos do BC chileno e associada da Fundação Atlas

Para os discípulos dos Chicago Boys chilenos, a onda de protestos no país não põe em xeque o modelo liberal aplicado há décadas, mas é preciso haver ajustes que contemplem as novas demandas da classe média.

É esta a opinião de Bettina Horst, 48, vice-diretora do Instituto Libertad y Desarrollo (Liberdade e Desenvolvimento), principal porta-voz no país das ideias liberais que foram implementadas por economistas ligados à Escola de Chicago ainda durante a ditadura do general Augusto Pinochet (1973-90). Um dos fundadores do think tank é Hernan Buchi, que foi ministro da Fazenda de Pinochet.

“A liberdade econômica gerou grandes benefícios, pois reduziu a pobreza e melhorou os padrões de vida. Mas hoje isso precisa ser acompanhado também de um Estado que consiga enfrentar os novos desafios e as novas demandas”, diz Horst, em entrevista por telefone.

Segundo ela, as manifestações não têm relação com a desigualdade de renda, mas com as frustrações causadas pela redução no ritmo de crescimento da economia dos últimos cinco anos. A média de alta do PIB, que já teve picos de mais de 10%, caiu para 2,31% desde 2014.

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O Chile é um país bastante desigual. Que papel esse fator tem nas manifestações? Não é por acaso que tudo isso tenha surgido após termos registrado, nos últimos cinco anos, o pior crescimento da economia em três décadas. Eu, quando digo que não é um tema de desigualdade, não é porque queira afirmar que ela não exista. Mas mais do que a desigualdade, o que as pessoas sentem é que a economia não anda tão bem. A taxa de crescimento tem sido muito mais baixa do que em anos anteriores. Quando se vê as pesquisas de antes deste episódio, as pessoas se queixam de que têm muitas dívidas pendentes e de que há deficiências em educação, aposentadoria, saúde. Muitos setores da população atendidos pelos Estado hoje recebem um tratamento pior do que o oferecido pelo setor privado. Não se notava a urgência desse problema, e se buscava respostas erradas. Quando se fala de reformar a saúde, por exemplo, muitas vezes se termina por injetar maiores recursos no sistema, mas que não necessariamente dão melhor resultado.

A economista chilena Bettina Horst, defensora do modelo liberal de seu país (Divulgação)

O modelo liberal chileno foi aplicado em dose excessiva? O fato concreto é que o modelo dos últimos 30 anos e as reformas dos anos 1980 tiveram três pilares: liberdade econômica, responsabilidade fiscal e políticas sociais focadas nos grupos mais pobres. Essa foi a base do desenvolvimento. O que mais faltou foram políticas sociais que se ajustassem a um país mais de classe média, e não a um país com 70% de pobreza, como já tivemos. O Estado não tem sido capaz de atender à urgência das pessoas. Essas manifestações são de pessoas cansadas de esperar por uma melhor atenção de saúde, cansadas de esperar melhor segurança etc. Um dos principais desafios é conseguirmos fazer uma reforma do Estado e de políticas que deem conta da nova realidade do Chile.

Uma realidade de uma classe média mais forte? Mais forte, com maiores perspectivas e mais exigente. O que não podemos perder é a liberdade econômica e a responsabilidade fiscal. Não se deve retroceder. As coisas não são excludentes. No fim das contas, tudo que faça que em políticas sociais, tudo que se faça para melhorar o Estado, se você não melhora as condições do que a população sente, nunca é suficiente.

Mas não é necessária uma correção no modelo? Não acho que houve excesso. O que vimos é que durante o segundo governo da presidente Bachelet (2014-18), foram feitas reformas importantes que atentavam contra a liberdade econômica. Essas reformas levaram o país a crescer menos e a ter menos empregos. A taxa de crescimento dos salários começou a cair também. Então, o eixo central é retomar uma trilha de crescimento econômico com uma política social que seja capaz de acolher as distintas demandas.

Deveria haver mais desregulamentação? Não podemos retroceder em reformas que nos permitam retomar o caminho do crescimento. Hoje, por exemplo, nosso código de trabalho não dá conta da nova realidade do teletrabalho ou da automatização. É muito rígido quanto às jornadas de trabalho e outros aspectos. As reformas têm de ser focadas em como o país conseguirá ter mais desenvolvimento econômico, mas também ter um Estado capaz de responder melhor às demandas que estão surgindo. E aí o tema da saúde, o tema da aposentadoria, é central. Vocês veem isso no Brasil, muitas vezes o Estado não é capaz de cumprir com suas promessas. Este é o desafio, de se cumprir o que está se prometendo, porque senão o descontentamento será muito maior.

A capitalização chilena é vista como modelo para o Brasil, mas falhou ao não garantir uma renda digna para uma parte dos cidadãos. É hora de reformar a Previdência chilena? Aqui há anos se discute uma reforma do sistema de aposentadorias. Isso vai além da capitalização. O sistema que temos, em que as pessoas poupam para sua posterior aposentadoria, é insuficiente para quem não consegue manter um emprego estável. Temos que discutir o aumento da idade mínima para a aposentadoria, porque aqui seguimos com a idade nos anos 1980, e hoje a expectativa de vida é muito mais alta. É necessário aumentar a taxa de participação [no sistema], aumentar a idade mínima e reforçar também as aposentadorias dos setores que não conseguiram poupar uma quantidade suficiente. Com respeito à capitalização, os aportes que cada um faz asseguram que a aposentadoria vai estar ali amanhã. Temos visto outros sistemas, de repartição, em que, no fim do dia, se o sistema não tiver recursos, não vai pagar. É preciso manter a capitalização, mas fazer reformas que deem conta do que houve nos últimos 40 anos.

O Chile arrecada pouco e gasta pouco com educação e saúde públicas. É preciso mudar esse modelo também? Hoje, efetivamente há educação pública que responde por 40, 45% das matrículas. Educação pública que lamentavelmente perdeu muitas matrículas porque vimos alguns colégios emblemáticos serem capturados por setores mais radicais, que fazem com que seja impossível haver aulas. E houve o desenvolvimento de uma educação privada financiada pelo Estado. Hoje, há mais gente se educando neste sistema do que no público. Quando o último governo [Bachelet] insistiu em transformar a educação, houve várias manifestações em colégios particulares pagos pelo Estado, que se opuseram fortemente. Estavam defendendo seu legítimo direito a escolher entre educação privada e pública.

A redução do crescimento é resultado de políticas de esquerda? O clima anti setor privado que se instalou nos últimos anos não ajuda a um ambiente favorável a fazer negócios. Qualquer política de Estado mais forte, qualquer política social que não venha acompanhada de reformas que facilitem ou gerem um melhor clima para fazer negócios não vai ser suficiente.

A economia chilena ainda é muito dependente de exportações. Até que ponto isso é um problema? Sempre houve a dependência do cobre, mas vimos desenvolvendo outros setores. E também a economia em seu conjunto cresceu em setores distintos, mas nos afeta muito o que se passa no mundo, especialmente nos EUA e na China. Nesse contexto, conseguimos ter políticas que fortaleçam aqueles setores mais prejudicados, que dependem mais do ciclo externo.

Como essa crise afetou a imagem no país dos Chicago Boys? A liberdade econômica gerou grandes benefícios, pois reduziu a pobreza e melhorou os padrões de vida. Mas hoje isso precisa ser acompanhado também de um Estado que consiga enfrentar os novos desafios e as novas demandas. Os temas da saúde, da segurança, da aposentadoria, são próprios de um país que mudou radicalmente nos últimos 30, 40 anos. Mas não se pode deixar de avançar em medidas que permitam recolocar o país no caminho do progresso econômico. Os próximos meses e anos serão muito difíceis.

 

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Raio-x
Nome: Bettina Horst
Idade: 48
Cargo: vice-diretora do Instituto Libertad y Desarrollo
Formação: formada em engenharia comercial, com mestrado em Economia pela PUC do Chile
Funções que exerceu: foi chefe da Área Monetária do Departamento de Estudos do BC chileno e associada da Fundação Atlas