A índia de Bolsonaro é apenas um fantoche ou sinal de algo maior?

A inclusão da índia youtuber Ysani Kalapalo na delegação oficial levada pelo presidente Jair Bolsonaro à Assembleia Geral da ONU levantou uma discussão: até que ponto ela é uma marionete do governo, e até onde é possível falar em algo como um indigenismo bolsonarista?

Apenas recordando, Ysani é egressa de uma aldeia no Parque do Xingu, em Mato Grosso, mas hoje divide seu tempo com uma militância urbana pró-Bolsonaro em São Paulo.

Com 273 mil seguidores em seu canal de vídeos, ela se define nas redes sociais como “apresentadora, youtuber e indígena do século 21”.

Diz que a ocorrência de queimadas nessa época do ano é normal, porque é a época de preparar a roça de mandioca. Num vídeo, aparece ofegante em meio à fumaça para provar seu argumento.

Também critica a representatividade do líder indígena brasileiro mais conhecido no mundo, o cacique Raoni, e troca gracinhas com figurões do governo.

Recentemente, fez piada junto à ministra Damares Alves (Direitos Humanos), que foi acusada de ter sequestrada uma criança indígena (o que ela nega).

“Não sou aquela sequestrada pela Damares, não é nada disso”, diz Ysani, ao que a ministra responde, entrando na brincadeira: “Eu não consegui sequestrar essa!”.

Renegada pela maioria das lideranças indígenas do Xingu, que dizem que ela não tem representatividade, Ysani é obviamente usada como um troféu por um governo acuado pelas críticas internacionais que sofre.

Há motivo de sobra para isso: conforme já apontou o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a área desmatada na Amazônia aumentou 222% em agosto de 2019, na comparação com o mesmo período do ano passado.

Projetos para abrir reservas a atividades econômicas como a mineração ameaçam dezenas de etnias, apontam indigenistas. A estrutura de fiscalização do Ministério do Meio Ambiente foi fragilizada.

O presidente Jair Bolsonaro e a indígena Ysani Kapalalo, durante encontro no final do ano passado (Reprodução)

Se o primeiro instinto é tripudiar de  Ysani, é fato que há outras vozes indígenas que apoiam a visão de Bolsonaro sobre o tema.

Neste domingo (22), foi divulgada carta de um “Grupo dos Agricultores Indígenas do Brasil”, defendendo a ida dela a Nova York.

Poderia ter sido escrita por um assessor do presidente, como mostra este trecho: “O desespero das ONGs nacionais e internacionais é evidente, pois finalmente no Brasil a espiral do silêncio em relação ao que os indígenas realmente desejam está sendo quebrada”, diz a carta.

De forma crescentemente coordenada, algumas comunidades estão abraçando o discurso do governo de demonização das ONGs e inserção dos povos indígenas nas cadeias de produção econômica.

Uma das etnias mais articuladas na defesa deste modelo são os paresis, do oeste de Mato Grosso. Produtores de soja, milho e feijão, entre outras culturas, eles já tiveram problemas com a Justiça por usar sementes transgênicas, algo proibido em reservas indígenas.

Mesmo assim, viraram os queridinhos do governo, como mostrei em uma reportagem em maio.

Previsivelmente, os paresis apoiam Ysani. Em fevereiro, foram os anfitriões de um encontro nacional de agricultores indígenas.

“Ela tem buscado informar sobre a real situação da política indigenista. Está bastante correta, tenta mostrar a verdade”, afirma Ronaldo Zokezomaiake, 44, presidente da Copihanama, a cooperativa dos índios paresis.

Segundo ele, a visão tradicional sobre os povos indígenas está superada. “Muitos pregam que os índios vivam no período pré-colonial, que sejam tutelados”, afirma ele, que defende a política de Bolsonaro. “O governo atual prega autonomia dos povos indígenas, de forma direta. Sem depender de terceiros”, diz.

Está claro que o governo Bolsonaro decidiu incluir a questão indígena em sua grande trincheira de luta ideológica contra a esquerda. E para isso, procura criar fissuras em um movimento que lhe é hostil.

Se vai funcionar é outra história. Mas seria um erro desprezar Ysani como apenas uma insignificância.

A inclusão da índia youtuber Ysani Kalapalo na delegação oficial levada pelo presidente Jair Bolsonaro à Assembleia Geral da ONU levantou uma discussão: até que ponto ela é uma marionete do governo, e até onde é possível falar em algo como um indigenismo bolsonarista?

Apenas recordando, Ysani é egressa de uma aldeia no Parque do Xingu, em Mato Grosso, mas hoje divide seu tempo com uma militância urbana pró-Bolsonaro em São Paulo.

Com 273 mil seguidores em seu canal de vídeos, ela se define nas redes sociais como “apresentadora, youtuber e indígena do século 21”.

Diz que a ocorrência de queimadas nessa época do ano é normal, porque é a época de preparar a roça de mandioca. Num vídeo, aparece ofegante em meio à fumaça para provar seu argumento.

Também critica a representatividade do líder indígena brasileiro mais conhecido no mundo, o cacique Raoni, e troca gracinhas com figurões do governo.

Recentemente, fez piada junto à ministra Damares Alves (Direitos Humanos), que foi acusada de ter sequestrada uma criança indígena (o que ela nega).

“Não sou aquela sequestrada pela Damares, não é nada disso”, diz Ysani, ao que a ministra responde, entrando na brincadeira: “Eu não consegui sequestrar essa!”.

Renegada pela maioria das lideranças indígenas do Xingu, que dizem que ela não tem representatividade, Ysani é obviamente usada como um troféu por um governo acuado pelas críticas internacionais que sofre.

Há motivo de sobra para isso: conforme já apontou o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), a área desmatada na Amazônia aumentou 222% em agosto de 2019, na comparação com o mesmo período do ano passado.

Projetos para abrir reservas a atividades econômicas como a mineração ameaçam dezenas de etnias, apontam indigenistas. A estrutura de fiscalização do Ministério do Meio Ambiente foi fragilizada.

O presidente Jair Bolsonaro e a indígena Ysani Kapalalo, durante encontro no final do ano passado (Reprodução)

Se o primeiro instinto é tripudiar de  Ysani, é fato que há outras vozes indígenas que apoiam a visão de Bolsonaro sobre o tema.

Neste domingo (22), foi divulgada carta de um “Grupo dos Agricultores Indígenas do Brasil”, defendendo a ida dela a Nova York.

Poderia ter sido escrita por um assessor do presidente, como mostra este trecho: “O desespero das ONGs nacionais e internacionais é evidente, pois finalmente no Brasil a espiral do silêncio em relação ao que os indígenas realmente desejam está sendo quebrada”, diz a carta.

De forma crescentemente coordenada, algumas comunidades estão abraçando o discurso do governo de demonização das ONGs e inserção dos povos indígenas nas cadeias de produção econômica.

Uma das etnias mais articuladas na defesa deste modelo são os paresis, do oeste de Mato Grosso. Produtores de soja, milho e feijão, entre outras culturas, eles já tiveram problemas com a Justiça por usar sementes transgênicas, algo proibido em reservas indígenas.

Mesmo assim, viraram os queridinhos do governo, como mostrei em uma reportagem em maio.

Previsivelmente, os paresis apoiam Ysani. Em fevereiro, foram os anfitriões de um encontro nacional de agricultores indígenas.

“Ela tem buscado informar sobre a real situação da política indigenista. Está bastante correta, tenta mostrar a verdade”, afirma Ronaldo Zokezomaiake, 44, presidente da Copihanama, a cooperativa dos índios paresis.

Segundo ele, a visão tradicional sobre os povos indígenas está superada. “Muitos pregam que os índios vivam no período pré-colonial, que sejam tutelados”, afirma ele, que defende a política de Bolsonaro. “O governo atual prega autonomia dos povos indígenas, de forma direta. Sem depender de terceiros”, diz.

Está claro que o governo Bolsonaro decidiu incluir a questão indígena em sua grande trincheira de luta ideológica contra a esquerda. E para isso, procura criar fissuras em um movimento que lhe é hostil.

Se vai funcionar é outra história. Mas seria um erro desprezar Ysani como apenas uma insignificância.